Frequentemente recebo mensagens diretas e e-mails de pessoas me perguntando como tudo começou, há quanto tempo desenho, etc.
Hoje é o dia do desenhista, e então eu resolvi contar para vocês um pouco da minha jornada até aqui.

Eu sempre fui inquieta. Estava o tempo todo procurando o que fazer. As lembranças da minha infância envolvem muita bagunça, brinquedos e lápis misturados e desorganizados. Me lembro de estar desenhando em muitos momentos, principalmente se minha irmã não estava comigo.
Minha mãe conta que na escola os meus desenhos eram diferentes dos das outras crianças. Enquanto elas estavam rabiscando coisas sem sentido, já era possível identificar meus desenhos e as histórias que eu contava através deles.

Meus pais não tinham muitas condições financeiras, então os presentes que eu pedia de aniversário e/ou dia das crianças começavam em boneca da propaganda e terminavam em caixa de tinta guache ou massinha de modelar. E era sempre a segunda opção que eu ganhava. E amava!
Lembro da minha mesinha branca de plástico, sempre suja de tinta ou com massinha grudada. Meu coração sempre bateu forte por essas coisas.
Minha prima Rafaella, que também era minha vizinha, me acompanhava nas aventuras artísticas. Ela desenhava (e ainda desenha) muito bem, e por isso eu vivia atrás dela, buscando aprender mais um pouco.
Como não tínhamos muitas bonecas de “verdade”, elas eram desenhadas. Roupas, cenário, situações da nossa imaginação, tudo ia pro papel. A gente também desenhava cartões de Natal, que nunca eram entregues.

E como eu disse, estava sempre buscando coisas novas para fazer. Logo meu “espírito” empreendedor começou a aflorar. Passei a vender meus gibis na escola e os livros que usava no ano anterior iam todos para o sebo. Minha tia, que é professora, frequentemente me dava livros; eu colocava num carrinho e ia correndo vender no sebo.
Os livros com mais ilustrações eu guardava, cortava os desenhos e fazia adesivos com papel contato. E adivinha? Eu vendia os adesivos também!
Cartões do Smilinguido, cartelas de adesivo, crochê, ponto-cruz, biscuit, bijuterias… Tudo eu vendia!
Uma vez minha irmã e eu ganhamos uns chocolates e passamos a tarde inteira com uma mesinha em frente de casa gritando “OOOOLHA O CHOCOLAAAATE! É PRA VENDEEEER!”. Acabou que ninguém nos levou a sério, não vendemos nenhunzinho e comemos tudo.
Geralmente eu usava o dinheiro das vendas para comprar materiais de desenho. Minha maior alegria foi quando consegui comprar uma coleção de 24 cores da Faber Castell.

Quando eu tive meu primeiro namorado, a mãe dele trabalhava com artesanato e me deu vários retalhos de papel. Com esses retalhos eu fiz bonecas, que logo passaram a ser vendidas para pessoas que trabalhavam com scrapbook. Foi o maior sucesso! De todos essas minhas “vendanças”, as bonecas de papel foi o negócio que deu mais certo. Aí o namoro acabou e as bonecas também (hehe). Devo muito ao apoio de Miriam e aos retalhos de papel que até hoje ainda guardo.

No 3° ano do Ensino Médio, quando precisava me dedicar mais aos estudos e tentar entrar na universidade, eu dei uma pausa. Acredito que foi o maior período que fiquei sem desenhar.
O ano acabou, não passei no vestibular, não tinha condições de pagar um cursinho, não tinha ânimo pra estudar, minha irmã tinha saído de casa pra fazer seminário em outro Estado e eu fiquei super mal. Me isolei de todo mundo e passei a viver trancada no meu quarto. Trocava o dia pela noite porque ficava no computador até altas horas.

Até que eu resolvi criar um Tumblr e usar esse tempo de ócio para alguma coisa legal. Comecei a escrever coisinhas no blog e ele passou a ter visualizações. Fiz o download do Photoshop, cacei tutoriais e fui editando fotos com versículos e mensagens motivacionais. Isso gerou um número incrível de visualizações no tumblr e também várias pessoas vinham me pedir conselho. Eu finalmente tinha saído daquela “bad” e comecei a enxergar que coisas boas poderiam acontecer na minha vida. Inclusive, fiz muitos amigos “virtuais”, que estão comigo até hoje. Malena Flores é um deles.

Naquele ano (2011) muita coisa mudou na minha vida. Uma delas foi quando um amigo deu meu contato a um senhor que vendia caricaturas na praia. Ele ouviu falar que eu fazia desenhos e decidiu me dar um emprego. Mas para isso ele precisava me treinar.
Nosso ponto de encontro para treinos era num shopping perto da praia. Eu ia todos os dias pra lá e fazia caricaturas dos clientes dele a tarde inteira (esse era o treino). Em troca eu recebia o dinheiro da passagem. Ele me deu muitas dicas de materiais, me ensinou técnicas, mas também me usou.
Na desculpa de que ia assinar minha carteira, ele disse que eu precisa cumprir expediente, então eu precisaria ir pela manhã.
No primeiro dia que fui pela manhã, na esperança de ter minha carteira assinada, cheguei bem cedo à uma lanchonete que ficava em frente ao shopping. Nisso ele falou que precisava buscar um material na pensão que morava, pois havia esquecido e pediu que eu o acompanhasse. Fiquei com medo, claro, mas fui. Chegando lá, era uma pensão bem arrumadinha, que geralmente recebia turistas. Tinha uma mesinha no jardim e lá eu fiquei esperando. Ele apareceu com o material e sugeriu que ficássemos lá para treinar. Naquele dia fiz muitos desenhos. Ele me “ameaçou” e eu fiquei até o final da tarde desenhando e recebi em troca apenas um copo d’água.
Fui pra casa transtornada, pois esperava que o pior fosse acontecer comigo. Chorei bastante e meus pais disseram que nunca mais eu voltaria a ver aquele senhor. E eu nunca mais voltei.

Mas como diz meu amigo Candinho da novela, “tudo que acontece de ruim na vida da gente, é pra melhorar”.
Apesar do trauma, eu não tinha deixado de aprender. Então usei as técnicas que me foram passadas para fazer minhas próprias caricaturas e ir atrás dos meus próprios clientes.
A princípio eram desenhos simples, feitos à mão, que depois viraram digitais. Com o apoio da minha família, amigos e namorado, e com a ajuda de Deus e do meu amigo Google, aprendi a mexer nos softwares de desenho e fui me aperfeiçoando.
Fui ganhando meu dinheirinho, entrei na faculdade, me formei e consegui pagar todas as mensalidades através do meu trabalho. Casei, e paguei boa parte da festa através do meu trabalho.

Centenas de clientes já passaram por mim. São pessoas de todas as idades representadas através das minhas mãos. São pessoas que confiaram e confiam no meu trabalho.
Eu orava pedindo a Deus oportunidades, e ele tem me dado todos os dias. Mesmo que essas oportunidades venham “disfarçadas” de situações difíceis.
Sou realizada no que faço e agradeço todos os dias ao Senhor, o meu melhor professor por ter me sustentado até aqui.

E você, se leu até aqui, obrigada. Me sinto bem compartilhando isso.

E feliz dia a todos os desenhistas que traduzem a vida de um jeito maravilhoso!